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domingo, 28 de maio de 2017

A ESCRAVA ISAURA (CENA O8).



Criar arte, viver de arte, pensar a arte, para mim, é como o exercício de ser mãe, uma mãe zelosa, e como tal trás prazer e algumas dores. A concepção é cheia de expectativas, o parto na maioria das vezes - falo apenas por mim - é difícil, extremamente aflitivo até, mas quando vem à luz é um deleite indizível. O que segue poderíamos chamar de administrar, educar, preparar para a vida e o resultado de tudo pode ser tanto orgulho e alegria quanto decepção e tristeza (sem exagero!).

Elaborar meus quadrinhos sempre teve um pouco disso tudo, é bem verdade que preparei a minha cria (fazendo o que estava ao meu alcance) para que ela fosse grande, que se destacasse no mundo, mas por motivos que estão além dos meus esforços, ela ficou num patamar mediano, humilde, mas, acho, honrado.

Minhas artes pessoais (pinturas, HQs, desenhos, esboços) sempre me encheram de satisfação, eu dei vazão a tudo que ia no meu íntimo, euforia, dor, contentamento, decepção, para isto elas serviam, para ser minha porta voz, a forma de me comunicar com um possível público. Não encontrei eco na maioria das vezes, quase não me trouxeram retorno financeiro, mas serviram como ponte para clientes. Hoje vivo - não tão bem, devo frisar - do que aflora dos meus traços e cores.

Esses arroubos, atualmente, já não tem sido possível, não há tempo mais para meus exercícios artísticos. Nem meus rabiscos espontâneos em meus caderninhos eu consigo. Parte disso acentua este meu estado de amargura.

Não vou falar de trabalhos que me trouxeram dissabores (não digo apenas de empregadores chatos mas de desenhos que desprezo por não terem ficado do meu agrado) mas comento aqueles que apesar de difícil execução foi prazeroso ver o resultado.

A coleção de clássicos da literatura brasileira foi uma destas empreitadas que foram felizes. Foram 45 livros com 15 ilustrações cada. Na verdade, como já foi comentado aqui, era pra ter fechado em 50 livros mas pararam a coleção antes. Há planos de continuar, ainda há muitos títulos relevantes que ficaram de fora mas até agora não deram notícias.

O que mais gostei de estruturar nesta obra foi a liberdade de gerar as cenas, é bom produzir assim, sinto como se eu participasse do engendramento do escritor. A editora mandava sugestão de imagens mas eu é quem decidia como seria feito.

Nem todos os livros foram impressos; a metade, eu diria.

A Escrava Isaura foi o canto do cisne.

Uma boa semana a todos.

domingo, 21 de maio de 2017

ABRAÇADO PELA SOLIDÃO.



Era muito cedo e ele já estava acordado, não dormira bem as últimas noites, na verdade ele não se lembrava da última vez que tivera um somo tranquilo e reparador, havia em seu universo um sem número de elementos que provocavam o caos, pequenos asteroides que promoviam o desequilíbrio e sua impotência em ordenar as coisas lhe traziam aflição à alma. Ele sorria, mas era um movimento de músculos faciais forçado, muito mais fácil era verter grossas lágimas, lágrimas de arrependimento, lágrimas por desejar que o impossível se tornasse possível. Ele tinha consciência de que seu lugar no mundo não era dos piores, haviam criaturas, milhões delas, em situações abjetas, mas isso não lhe servia de consolo e este egoísmo também lhe pesava na alma. A arte, esta grande irmã, que tantas vezes o tirou do lodaçal, parecia agora impotente, ausente.
Mas a tristeza, essa amiga que tantas vezes o inspirou no ato de criar, naquela manhã em particular doía-lhe no âmago.

"Podemos conversar um pouco?" Perguntou à esposa.
"Tem que ser agora? Estou ocupada com tais afazeres."
"Não, tudo bem, não é nada importante." Respondeu ele.

Pensou em falar com a mãe e os irmãos, mas o telefone que tinha em casa não permitia chamadas interurbanas e depois, imaginou: eles também estão cheios de problemas, não precisam de mais um.

Não muito tempo depois, encontrou uma amiga querida.
"Que bom te ver!"
"Digo o mesmo, mas eu preciso ir, meu companheiro me espera!"
"Por favor, fique mais um pouco, só cinco minutos, por favor!"
"Não posso, ele já me observa da varanda! Me ligue e conversamos, ok?"
"Ok."

Ele lembrou-se de um tempo em que viveu numa grande cidade cosmopolita. Tantas pessoas nas ruas, nas praças, nos trens, todas alheias, mergulhadas em si mesmas e ele acossado pelo abatimento.

Foi assim no passado, era assim no presente.

O dia seguiu seu curso, com todos os obstáculos físicos e imateriais que o impediam de se dedicar ao seu ofício. Olhou decidido para a estrada que tinha a sua frente, respirou fundo e seguiu por ela de mãos dadas consigo mesmo.

domingo, 14 de maio de 2017

MÍSTICA.


Os dias estranhos continuam sua caminhada firme e inexorável nesta etapa da minha vida sem dar demonstrações de que vai parar para recuperar fôlego. Pudesse eu falar de tudo que me atormenta, muitos entenderiam porque eu afirmo que esses últimos meses têm sido carrascos. Na verdade eu já deveria estar acostumado, passei pelas mesmas situações na juventude e não sei como suportei. Existem pessoas capazes de sobreviver às maiores tragédias e no fim ainda dar uma lição de vida. Definitivamente não sou esse tipo de pessoa.

Hoje, entediado, após terminar uma página A3 toda aquarelada para o novo livro infantil que estou fazendo, pensei: mais uma para ficar esquecida numa pasta, mais uma para se juntar a tantas outras numa pequena literatura que fará parte de uma coleção que ninguém saberá onde encontrar para ler, sequer saberão que existe, a menos que eu a exponha numa rede social e diga: ARTE PARA LITERATURA INFANTIL e meus admiradores, que não são tantos assim, dirão: "Uau! Que ilustração bacana!" e depois esquecerão dela. Sim, você está certo, eu reclamo de barriga cheia, afinal, depois de suar a camisa por anos, consegui dar algumas soluções para o problema do branco do papel, como preenchê-lo com traços e cores e dar uma alma ao que ali vai sendo formado. Esta alma não será do agrado de todos, certamente, mas ainda assim ela estará viva e provocará reações e isto eu sei, não e para qualquer um. Muitos ainda labutam sem conseguir dar vida e personalidade aos seus desenhos mas conseguem enganar bem as pessoas, alguns até ganham bastante dinheiro. Pensando bem, esse negócio de alma na arte é uma questão de ponto de vista. Eu posso achar que os meus traços, por mais toscos que possam me parecer, tenham o poder de tocar o coração de alguém, outros acharão que meus desenhos não tem brilho algum..... Ok, ok, vou parar, eu sei que como filósofo eu sou de uma mediocridade de dar dó!

Eu deveria ter continuado trabalhando, afinal, como sempre, esses projetos tem prazos apertados, mas parei para comer algo e depois fui ver um episódio de uma série e em seguida procurar uma arte que foi comprada por um admirador. Abri muitas caixas e envelopes e fiquei perplexo com a quantidade de desenhos que já fiz nessa vida. Muitos permanecem inéditos do grande público, principalmente uma série para livros didáticos que nunca foram publicados. Como sonhar ainda não paga imposto, pensei: "Cara, se um dia meu nome se tornar alguma coisa além de que é atualmente e eu morrer, minha família pode faturar uma boa grana num desses leilões da vida, pois o que não vai faltar é desenho para vender ou publicar postumamente." Ah, como estou cansado! Mas não dá pra parar e beber um pouco d´água, simplesmente porque não há água, tampouco onde sentar. A vida exige que eu continue ininterruptamente e assim faço.

Não lembro exatamente porque fiz esse desenho da Mística (vilã mutante dos X-MEN que no cinema transformaram em heroína), mas aí está.


Hoje foi Dia das Mães, eu deveria ter vindo aqui mais cedo fazer uma postagem que falasse disso, mas pensando bem, dizer o quê? Agradeço a Deus que minha mãe está viva e bem. Meu beijo a todas as mamães que me visitam aqui.

Ainda não consegui colocar as mãos em meus desenhos pessoais mas hei de fazê-lo. Não sei até quando vou suportar a pressão, mas não vou desistir, essa palavra não existe em meu dicionário.